A linguagem dos padrões

padroesQuando se estuda permacultura, em cursos regulares ou como autodidata, logo se percebe que um dos assuntos mais difíceis de serem compreendidos e colocados em prática é o dos padrões naturais. Os estudantes de permacultura em PDC costumam dizer que falta algo para facilitar a compreensão. A maioria deles relata que não vê como o conceito de padrões pode realmente servir ao design permacultural. E por achar fascinante esse tema, fiquei com essas questões em mente por um longo período até chegar ao que vou apresentar a seguir. Não se trata de algo finalizado, talvez nunca seja, mas é o início de um exame apaixonado pela verdade.

Este artigo pretende auxiliar aqueles que desejam ir além do uso dos clássicos padrões naturais como meros modelos a serem imitados em sua forma ou comportamento. Compreender os padrões naturais nos tornará melhores observadores dos sistemas complexos da natureza e acho que essa competência é fundamental para um permacultor.

Os sistemas complexos não podem ser explicados por meio de fórmulas científicas. Os desafios do nosso tempo não são lineares. Ao ler o livro “Sabedoria Incomum” de Fritjof Capra, onde ele relata sua busca por um arcabouço de conhecimentos que permitisse a construção de uma nova visão de mundo, uma abordagem sistêmica, me deparei com algumas idéias que tem uma relação estreita com o tema dos padrões naturais na permacultura, que poderiam ser uma base para o seu entendimento e uso.

I – O Padrão que Une

Entre essas idéias estão as de Gregori Bateson, para quem a relação entre os fenômenos deveria ser a base para todo e qualquer enunciado científico. Segundo ele, a chave está em descobrir nos objetos de observação os princípios de organização que os colocam em relação com os demais; desvendar “o padrão que une” os fenômenos.

Para ilustrar seu pensamento original, Bateson costumava brincar com o seguinte silogismo de Sócrates:

“O homem morre. Sócrates é homem. Portanto, Sócrates morre.”

Dizia, bem humorado, que pela lógica tradicional do silogismo anterior, é possível afirmar que:

“O homem morre. O capim morre. Portanto, o homem é capim.”

Por um lado, Bateson nos mostra que a velha lógica não resolve todos os problemas e, por outro, sugere que precisamos identificar padrões, conhecer as metáforas, ou seja, as relações de semelhanças entre as coisas a fim de compreender a natureza dinâmica da realidade. Quando comparamos um homem a um capim, sistemas complexos de naturezas diferentes, estamos identificando um padrão que os une, a morte.

Um dos princípios filosóficos da permacultura “observação atenta da natureza e transferência para o cotidiano” requer uma nova lógica, uma nova maneira de pensar e observar. Seguem alguns exemplos onde pode-se observar essa nova lógica e conectar com o princípio do Batesson.

No norte do Brasil existe uma árvore conhecida como mulateiro, que tem a característica de repor a casca facilmente, quando lhe é tirada. Os índios e caboclos, de tanto observarem a árvore, relacionaram este comportamento ao processo de regeneração de pele de pessoas que sofrem queimaduras. Por causa do padrão observado, fizeram diversas experiências para descobrir uma medicina que acelerasse o processo de regeneração da pele. O extrato da casca do mulateiro mostrou-se um excelente curativo para queimaduras e para outros males cutâneos.

A lógica por trás deste exemplo é que a natureza nos dá as respostas necessárias sem que precisemos de noções científicas precisas. Quando o negócio é trocar de pele, posso “perguntar” ao mulateiro como se faz e ele me dirá. O vento nos avisará a hora de podar uma árvore; o macaco ensinará a plantar o cacau e a gralha azul, a araucária. A natureza fala a linguagem dos padrões.

Outro bom exemplo é o método de tratamento das águas cinzas conhecido como círculos de bananeiras. Seu uso teve início, ao que se sabe, pela observação de uma clareira na floresta, onde as copas dos coqueiros derrubados pelos fortes ventos formavam um círculo. Os filhotes de coqueiros nascidos a partir dali eram extremamente beneficiados pelo acúmulo de matéria orgânica e umidade no centro do círculo. O mesmo acontece às culturas do mamoeiro e da bananeira. Posteriormente esse mesmo padrão de cultura foi usado em um círculo de bananeiras para o tratamento das águas cinzas (de pias, chuveiros, etc.). Qual o novo padrão observado? A capacidade dessas cultura de folhas largas evaporar grandes quantidades de água.

Um padrão de comportamento pouco percebido e bem usado pelo agricultor e pesquisador Ernst Götsch em suas agroflorestas. Nas clareiras naturais ou criadas pelo homem, as novas plantas sofrem influências das árvores velhas mais próximas. Observou-se que toda árvore tem um raio de influência sobre suas vizinhas correspondente a sua altura. Se estão velhas, transmitirão essa informação às mais novas, que parecerão mais velhas como suas vizinhas. Estas pequenas árvores não vão se desenvolver como as suas irmãs mais distantes, mesmo sob condições idênticas de luz, água e solo.

O permacultor não precisa conhecer o motivo pelo qual as árvores se comportam desse jeito, no que se refere à necessidade de conhecimentos e explicações científicas detalhadas. Basta observar o padrão e aproveitá-lo da melhor maneira possível. Diante da pergunta: porque isso acontece? A resposta é simplesmente “não sei”. Devido a toda complexidade dos sistemas naturais, essa é a realidade, não sabemos mesmo. A competência necessária a um permacultor é a da observação de padrões.
Diante do fato, o permacultor decidirá plantar as árvores novas mais distantes das velhas ou vai podar a árvore dominante para que ela rebrote e passe para as arvorezinhas uma nova informação, a de crescimento. O sistema florestal será beneficiado de um jeito ou de outro.

Para quem quer desvendar na prática a linguagem dos padrões, um bom exercício é a observação de plantas companheiras. Mas só devemos tomar cuidado para não interpretar como padrão de comportamento aquilo que observamos de maneira rápida e pouco representativa. O segredo é colocar-se diante de situações diferentes, para conseguir pontos de vista diferentes, a fim de saber se o padrão se repete ou se foi apenas uma infeliz interpretação. Para ser um padrão, há de ser repetitivo. O foco deve estar no fato verdadeiro e não nos conhecimentos e pensamentos que temos sobre algo parecido com o objeto de observação.

II – A Auto-Organização

A teoria dos “sistemas auto-organizadores” de Ilya Prigogine, prêmio Nobel em química de 1977, é outra grande contribuição para o entendimento dos padrões naturais. Ilya sustenta que os padrões de organização característicos dos sistemas vivos podem ser resumidos em termos de um único princípio dinâmico: o princípio da auto-organização. Um organismo vivo, mesmo interagindo e sofrendo influências do meio ambiente, organiza-se de acordo com determinações internas e não externas. A organização não vem de fora, mas de dentro. É a auto-organização.

Vou dar um exemplo. Quando ficamos expostos ao sol, nossos poros se abrem e, então, suamos. Não é o sol ou o calor que determina este comportamento diretamente. Nosso complexo sistema de auto-regulação da temperatura interna é que decide como realizar este equilíbrio.

Quando um sistema criado por nós, do qual fazem parte vegetais e pequenos animais, não se comporta exatamente como queríamos inicialmente, precisamos abrir espaço para que os sistemas complexos vivos dêem suas próprias respostas às nossas ações e à influência que sofrem do meio. Como aprendizes da natureza, nos cabe observar o que aconteceu e perceber as conexões de que ainda não havíamos nos dado conta.

Os sistemas vivos são complexos, são o resultado de diversas conexões e a maioria ocultas. As ações antrópicas, aquelas feitas pelo homem, são em geral simplistas por desconsiderarem as conexões que acontecem num mesmo fenômeno natural. Um exemplo triste é o do uso dos transgênicos. Soube de um caso em Portugal, uma plantação de girassóis geneticamente modificados que recebeu uma forte carga de herbicidas. Os venenos deixaram vivos os girassóis, mas mataram centenas de milhares de abelhas responsáveis pela polinização. Resolveram, então, pesquisar um girassol transgênico que também não precisasse da polinização. Esse é um caso triste de miopia e simplificação da realidade.

Uma nova linguagem

Tudo isso reforça a necessidade, para o estudo de sistemas complexos, de uma nova linguagem retratadora como uma fotografia ao invés de descritiva como um texto linear.

Os fatos verdadeiros podem ser observados e retratados pelos padrões observados, deixando àqueles que recebem a informação, a possibilidade de observar por si mesmos. Uma abordagem direta certamente dará à informação uma nova qualidade. O verdadeiro conhecimento, que vai na direção da realidade, acontece quando informação e experiência se econtram num mesmo contexto. Sozinha, a informação é vazia e estéril.

A linguagem dos padrões nos dá a base para descobrir o novo, o improvável, o impensado.

O uso da linguagem dos padrões também facilita a consolidação do design permacultural por meio da comparação entre necessidades e funções de cada elemento com a realidade circundante. Consolidar nesse caso significa não deixar nenhuma ponta do design sem conexão.

Nosso exercício diário no manejo de nossos sistemas permaculturais é estabelecer relações entre os elementos do design, vegetais, animais e estruturais (comportamento, forma, função, necessidade, …). Prestar atenção aos fatos mais corriqueiros do nosso dia a dia, fazendo sempre a mesma pergunta: qual é a relação aqui? E deixar a pergunta agir em nós pelo tempo que for necessário. Não precisamos nos apressar em ter uma resposta. Aliás, com o tempo percebemos que as respostas não são importantes.

Outras fontes e exemplos do uso racional e intuitivo dessa linguagem:

Agradecimentos
Este texto foi inspirado nas idéias e pesquisas de Gregory Bateson, Fritjof Capra, Ilya Prigogine, Bill Mollison, David Holmgreen, Ernst Götsch, nas interações com colegas permacultores, nas pessoas que vieram antes de todos nós e principalmente, na observação direta da natureza.

Ideias não tem dono, usem e divulguem. Mas esse texto tem um autor, se usá-lo cite a fonte.

Obs.: Este artigo também foi publicado na Revista Permacultura Brasil, edição #16.

16 respostas para “A linguagem dos padrões”

  1. Estou estudando sobre permacultura, gostei muito do que li, mas quero aprofundar o conhecimento pratico deste conteudo para posterior pratica nas comunidadades por onde ando. Onde encontro um bom curso de PERMACULTURA/?
    Moro no mMaranhão e sou educador ambiental.

  2. O permacultor não precisa conhecer o motivo pelo qual as árvores se comportam desse jeito, basta-lhe observar o padrão e aproveitá-lo da melhor maneira possível

  3. Gostei muito do texto. Nosso grande Mestre é a Natureza, basta observá-la, em silêncio e com profundidade. Olhar como ela funciona, e com amor e generosidade ela nos trará as informações necessárias . Se formos atentos com o que ela nos ensina entraremos em harmonia e criaremos um caminho de mais paz, solidariedade, respeito, ética, abundância e equilíbrio entre nós mesmos, nossos semelhantes e a Natureza.Namastê!

  4. Olá Itamar,

    Gostei tanto deste texto que decidi pesquisar sobre a permacultura de maneira mais teorica, para aprofundar a concepção ética e as motivações implicadas nos textos referentes a esse delicioso assunto que é a permacultura. Entretanto, sei de poucos meios para adquirir livros para a leitura mais conceitual, por exemplo, nunca li ou soube de alguem que leu um livro de Bill Mollison, mas estou interessada.
    Agradeço o incentivo!
    Berla

  5. Há tres anos abri um circulo de bananeiras na chácara onde moro em Campinas, SP. Meu objetivo foi o de ter perto da cozinha, um local para jogar todas as cascas produzidas diáriamente. Ao mesmo tempo, abri um pequeno canal do box do chuveiro para o mesmo círculo.O buraco foi de 1,5 de diâmetro por 0,80m de profundidade. Plantei apenas quatro mudas de bananeira que tinha já alcançado aproximadamente uns 80 cm de altura. Não fiz a ribanceira, não plantei outras frutas como o mamão e a batata, mas fui ao longo do tempo colocando plantas diversas entre elas a Maria Sem-Vergonha. A posição do local é sudoeste e recebe sol no final da tarde. O resultado é que diminuí em grande parte meu lixo organico e por consequencia o lixo que ia para a coleta pública e ainda ganhei e ainda ganho vários cachos imensos de banana e a produção de adubo cheio de minhocas que surgiram alimentando-se dos resíduos e produzindo grande quantidade de humus. Hoje procuro motivar as pessoas que possuem local em suas casas a fazer o mesmo.
    Nelly

  6. Pingback: A linguagem dos padrões | Rede Permear
  7. Texto bem escrito, criativo e humorado.
    O autor foi feliz em suas palavras vindas realmente das raizes da permacultura. Parabéns.

  8. Olá Itamar,
    Estou conhecendo um pouco mais sobre a permacultura, e este artigo sobre a linguagem dos padrões me encantou. É magnífico perceber o quanto a natureza tem a nos ensinar. É uma pena que, muitas vezes, fiquemos tão alheios a essas sutilezas.
    Parabéns pelo artigo!
    Um abraço,

  9. Olá Itamar,
    Grande artigo, assim como a natureza, nós homens deviamos ser mais observadores. Utilizando mais a linguagem do silencio. Enxergar pelas sombras. Os caminhos muitas vezes já estão escritos, então porque reescreve-los?
    Parabéns,

    Um abraço,

  10. Olá, Itamar!
    Gostei muito deste artigo. Linguagem de padrões existem no corpo e na alma… Abre-se assim outras portas…
    Agradecido, José

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