Sistematização da água

O que caracteriza de forma marcante a ação de um permacultor? Ao fazer o design de um assentamento humano, seja ele uma vila, um sítio ou uma casa na cidade, quais seriam as prioridades? Começar por onde?
Para responder a estas questões vou usar como inspiração uma frase do amigo Jorge Timmermann:

O principal trabalho de um permacultor é sistematizar a água e alimentar o solo.

Porque será que ele fala isso? Dá muito o que pensar, né? Então vamos explorar bem esse tema e para isso, vamos separá-lo em dois artigos. Neste artigo, falarei sobre a “sistematização da água” e num próximo falarei sobre “alimentar o solo”. Mas nesse artigo vamos procurar também identificar as conexões entre a água e o solo.

A linguagem
Procurando usar uma linguagem mais retratadora do que descritiva, vamos utilizar um mapa mental que procura abranger as principais oportunidades de sistematização da água em todas as zonas de um assentamento humano.
Mapa mental

Abordagem sistêmica
Para compreender a sistematização da água é necessário mais que esforço intelectual. É, antes de tudo, um exercício de profunda conexão com a natureza. É, principalmente, perceber o ambiente em que vivemos como um lugar por onde a água passa, sendo aproveitada da melhor forma possível para, em seguida, tomar seu curso natural, igual ou melhor do que chegou.

Por que sistematizar a água?
Porque há menos de 3% de água doce no planeta e apenas 24% disso está “disponível” para o consumo e esta pequena parcela (0,72%) passa por constantes perigos e ameaças. Mas, antes de tudo, sistematizamos a água porque temos uma ética – cuidar do planeta, cuidar das pessoas e partilhar os excedentes.
Além do mais, o nosso design só será válido se estiver de acordo com o seguinte princípio: “funções importantes devem ser supridas por pelo menos três elementos”. Precisamos de pelo menos três fontes de água num assentamento humano para que ele seja realmente sustentável. Afinal, podemos sobreviver algumas semanas sem comida, mas quanto tempo sobreviveríamos sem água?

Por onde começar?
Na metodologia de design da permacultura um dos métodos para analizar e compor a paisagem é chamado de “Planejamento por Zonas”. Neste método a área a ser planejada é dividida em ZONAS, segundo o grau de consumo de energia humana. A zona que mais consome energia, trabalho, é a zona I, depois a zona II, e assim por diante, até a zona V.
É como uma pedra caindo num lago. Que imagem lhe vem à mente? Uma série de anéis concêntricos que vão diminuindo de intensidade, certo? Assim é o consumo de energia humana no espaço. A Zona I, num assentamento humano, é exatamente o ponto de maior concentração e consumo de energia, trabalho humano. É nesta área onde se localiza a casa e o seu entorno. Alguns permacultores se referem a casa como sendo a Zona Zero, o centro da zona I. Outros, com os quais me identifico mais, se referem a Zona 0, como sendo o próprio ser humano que habita a Zona I. De nada adianta corrigir a paisagem, se o homem que habita nela, ainda pensar de maneira contrária ao rumo da natureza. Então precisamos começar pelas pessoas, pela ética, depois pela Zona I. Se não corrigirmos o lugar onde as pessoas moram, seus erros (efluentes, consumos exagerados, …) atingirão as outras zonas, sem dúvida.

Zona I
Aproveitar as águas da chuva, captadas por calhas no telhado ou em paredes altas (prédios), filtrando e armazenando em tanques ou outros meios à disposição, que sejam tão ou mais econômicos e eficientes quanto uma cisterna de ferrocimento.

Separando as águas usadas na casa em águas cinzas e pretas. As cinzas, usadas nas pias, chuveiros e máquinas de lavar, devem ser conduzidas por tubos até os círculos de bananeiras ou até outros sistemas de bio-remediação. E as águas pretas, que saem dos sanitários, podem ir para uma bacia de evapotranspiração. Melhor ainda é ter na Zona I um sanitário seco, onde utilizamos água somente para lavar as mãos. Usar a água para empurrar cocô é, no mínimo, uma visão distorcida de conforto. Os sanitários secos, também chamados de sanitários compostáveis, além de não poluírem as águas, ainda aproveitam ricos materiais, como urina, fezes e papel higiênico, gerando composto orgânico para alimentar as minhocas, que geram o húmus, que alimenta sementes e plantas. Podem ser do tipo compactos que cabem no WC tradicional ou também as “casinhas” com duas câmaras que ficam na área externa.

Próximo da casa, é possível usar algum sistema de irrigação na horta para compensar alguma situação de desequilíbrio energético momentâneo ou por decisão de design. Aqui cabem algumas considerações importantes. Se as interações com a natureza forem desconsideradas no design, será preciso usar energia de fora do sistema. O uso de espécies pouco adaptadas ao clima e ao solo e de culturas fora de época, por exemplo, exigirá mais umidade e outras condições que o sistema não está preparado para fornecer de forma natural. É possível fazê-lo, mas temos que ter consciência das implicações energéticas.

Neste caso, há soluções simples como o uso de quebra-vento, que diminui em muito o uso de água por evitar a desidratação das plantas, e dicas preciosas como evitar a irrigação por aspersão em horários inadequados (sol intenso provoca a salinização do solo devido à rápida evaporação da água ). É preferível fazer irrigação por gotejamento porque a água vai diretamente para as raízes, onde ela é mais necessária, sem criar oportunidade para fungos e bactérias nas folhas e dispensando o uso de adubos diluídos, que são pouco eficientes.

Para completar o design da Zona I com chave de ouro, criando uma bela oportunidade de viver de maneira intensa a nossa relação com a água, a dica é construir uma piscina natural para desfrutar das delícias de um banho sem culpas e sem medos. Numa piscina natural não há tratamento químico. Convivemos com plantas aquáticas e pequenos animais como se estivéssemos em lagos naturais.

Zonas II, III e IV
Elas não serão tratadas aqui individualmente porque os elementos a que farei referência podem estar localizados numa ou noutra, dependendo do design.

A declividade é um dos aspectos do terreno que mais influenciam na sistematização da água. Desde a necessidade de reflorestamento nas partes mais altas, tanto para provocar a infiltração da água no solo, evitando escorrimento e erosão, como para evitar a mudança, menos perceptível, dos níveis dos lençóis freáticos. Reflorestar também é sistematizar a água. Sem isso, as partes baixas viram charcos que afogam as raízes das plantas e as partes altas viram morros carecas sem nenhuma fertilidade.

Outra estratégia é construir canais e panelas de infiltração. Isso faz com que a água fique mais tempo no terreno, promovendo a fertilidade em alguns locais do terreno pela ação da gravidade e pelo acúmulo de matéria orgânica. O excedente pode ser armazenado em açudes e tanques, tanto para irrigação como para os animais.

A aqüicultura pode acontecer nos charcos naturais ou artificiais para culturas adaptadas, como o arroz e outras. As chinampas, no entanto, precisam ser mais estudadas. Quando sei de chinampas sendo construídas com tratores, fico pensando: como será que os astecas construíam as suas? Na Permacultura, se alguma técnica demanda muito trabalho ou altos custos, há algo de errado. Mas esse é um assunto para outra prosa.

Zona V
Aqui não há nada para fazer, apenas deixá-la seguir seu rumo natural, observá-la e procurar compreendê-la. Mas podemos, se necessário, coletar algumas sementes e, em caso de ameaça, proteger as nascentes de água.

O mapa mental que está exposto aqui pode servir de ponto de partida para qualquer permacultor que esteja iniciando a sistematização das águas. Mas ele é, principalmente, uma base que deve expandir-se com a troca de idéias entre aqueles que estão interessados em aprender a fluir com as águas.

Este artigo foi publicado na Revista Permear, edição No.1.

Saiba mais:
Alternativas para tratamentos de água

12 respostas para “Sistematização da água”

  1. Ola pessoal meu nome e Elton moro em araguína e tenho uma chacara
    e gostaria que vcs me ajudacem muito construir o meu carneiro

    ja comprei as peças para montar so que estou com duvida
    quando a valula
    presizo de ajuda
    desde ja agradeço

  2. Olá Itamar Vieira
    Olhando para esse mapa mental, acrescentaria no mesmo como sugestão a numeração de cada sub-tópico (Inserindo no texto e no mapa mental, seria quase como estivéssemos usando números de páginas só que aqui no próprio Mapa Mental, isso seria atrás de cada palavra chave do mapa EX: ZonaI-1.1.2 e no texto também, É MAIS RÁPIDO E PRÁTICO PARA ME SITUAR NO MAPA EM RELAÇÃO AO TEXTO! )) Já estou usando, nos meus materiais!
    Um abraço amigo

    plantasmultifuncionais@yahoo.com.br

  3. Itamar parabéns pelos atuais Mapas Mentais que você iseriu no Blog
    Sucesso nesta caminhada de Permacultor!
    E um forte abraço

  4. Olá Silvia, infelizmente meu inglês é pior que o do tradutor do Google, que ele poderia experimentar, acho que dará para entender. E se ele pesquisar “permaculture” em inglês provavelmente achará muito material.

  5. Boa noite!
    Vocês teriam esse artigo e o mapa mental em inglês? Temos amigos americanos que possuem uma fazenda no interior do Rio. Um dos filhos sonha em cuidar da terra/água de forma inteligente. Gostaria de apresentar a permacultura a eles.

    Parabéns pela dedicação, amor e determinação dessa iniciativa na contramão das facilidades do consumo de massa…

    Grata,
    Silvia

  6. Olá Arcélio, seu comentário me fez lembrar que já estava na hora de atualizar os mapas mentais deste artigo.
    Realmente o mapa mental é uma ferramenta excelente. Também uso para design permacultural e mais um monte de coisas.
    Valeu e está valendo!

  7. PARABÉNS PERMACULTORES!
    O Blog está ótimo!
    Gostei da Sistematização da água com o uso do MAPA MENTAL, também estou usando essa estratégia para montar Design Permacultural
    sou de:
    Esquina Budel(Interior)
    município: Independência RS
    (no Noroeste do Rio Grande do Sul)

    Arcélio Alberto Preissler

  8. Boa Noite.
    Senhores legal este saite sobre a bombapor gentilea poderia me ajudar gostaria de faer um mini laguinho de ums 60 ou 70 litros para as tartarugas de meu filho so que eu queria que agua fosse assimaisse no mini laguinho e oltasse aair nele noamente sem usar bomba ligada na lu usada na pernautura tipo rotação da agua por gentilea se alguem puder me ajudar meu email e elianerubin@hotmail.om. obrigado pela ossa ajuda

    Ateniosamente

    Eliane Rubin

    orbélia Pr

  9. moro em santa barbara-são paulo, proximo a americana. se houver algum curso de permacultura por esses lados, ou algum instituto a quem eu possa recorrer para analizarem minha area de 6500m²sendo que 3500²são de mata e o restante area livre, me avisem, por favor…aguardo retorno breve…..obrigada……

  10. Olá Itamar, chegamos na mesma conclusão que o Sergio Falci: Zona 0 = mais importante é trabalhar o homem e maravilhosa a frase “Na Permacultura se alguma técnica demanda muito trabalho ou altos custos,há algo errado.
    Estamos aproveitando muito a página de vocês, é maravilhoso o que a internet pode oferecer.
    Temos um sitio em Juquitiba – SP com 64 mil metros e estamos interessado em fazer o curso de PDC com vocês para adequar o mesmo aos principios da permacultura, assim como adequar nossa vida e nossa subsistência.
    Abraço.
    Rosana e Sergio -Atibaia – SP

  11. Busco contatos a respeito da permacultura em Santa Maria RS.
    Grato
    Marco Antonio

  12. Oi Itamar
    Muito boa sua colocação como sendo a Zona0 ,o ser humano que vai habitar o lugar,
    e maravilhosa a frase “Na Permacultura se alguma técnica demanda muito trabalho ou altos custos,há algo errado.”É um bom alerta pra quem vai começar.

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