Eu fiz Naikan

Acompanhei de perto o interesse de meus amigos da Vila Yamaguishi pelo método Naikan. Eles foram ao Japão, participaram de alguns cursos, conheceram o método e resolveram trazer para o Brasil. Penso que a principal motivação para isso foi o mesmo amor que os fazem promover o Tokkou – Curso Especial em Reunião de Kensan, uma vivência de 8 dias em que se faz uma pesquisa profunda sobre si mesmo (o “Eu”), sobre a vida humana e a sociedade.

Nos Tokkous em que participei, também notei que a maioria de nós tem dificuldades para se concentrar nos temas propostos porque as histórias pessoais vem para o primeiro plano. E as histórias emotivas, com sentimentos de raiva, mágoa, ressentimento… quando são lembradas, pedem atenção pra elas. Converso com meus amigos da Vila sobre isso. E sempre nos perguntamos o que poderia ser feito para que esses temas pessoais pudessem ter seu momento de cura e permitir que as pessoas pudessem aproveitar melhor o Tokkou. Hoje, depois de vivenciar um Naikan, também acho que esse método pode ser uma oportunidade de curar o passado.

O que relato agora é a minha experiência ao participar do meu primeiro Naikan:

Minha principal motivação para participar do Naikan, além de querer conhecê-lo, foi o desejo de ver as pessoas de minha família, e eu, felizes de verdade. E tem sido assim desde o meu primeiro Tokkou em 2004, quando percebi que isso era possível, de verdade.

Em anos recentes passei por uma fase de muito estresse seguida de uma depressão profunda, daquelas em que a saída parece ser apenas a morte. Teve um evento que detonou esses estado de coisas e na época não estava consciente da relação dele com outros dois traumas da minha vida. Por conta disso, quase que diariamente vivenciava sequências intermináveis de pensamentos, cada vez mais complexos e dolorosos. Normalmente quando tentava entender o passado, entrava num estado mental atormentado e não conseguia mais sair. Ficando dias, as vezes semanas sem falar com a família e amigos. Mas continuava buscando me reerguer e transpor esse estado de sofrimento interno.

Bom, a reflexão e o exame de si no Naikan baseia-se em três questões relacionadas à pessoas próximas da gente: pais, irmãos, marido/esposa, avós paternos/maternos, etc. Nesta ordem e de maneira cronológica. Eu escolhi examinar a minha história por meio da minha relação com minha mãe, meu pai e minha esposa.

O motor do método são essas três perguntas:

  • O que ela (essa pessoa) fez por mim?
  • O que fiz como retribuição (para ela)?
  • Que problemas ou dificuldades causei a essa pessoa?

Iniciei analisando “o eu”, em relação a minha mãe, dos 7 aos 9 anos, respondendo a cada umas dessas perguntas acima. E assim por diante até os meus cinquenta anos. Depois a mesma coisa com meu pai e por último, com minha companheira.

Nos primeiros dias segui o meu exame de maneira um tanto superficial. Havia muito julgamento e lembrava dessas pessoas sem ver a mim mesmo. O “eu” continuava invisível como um pensamento. O meu foco ficou inicialmente ligado às fortes emoções que as lembranças despertavam. Mas lá pelo terceiro dia aconteceu algo muito especial, um estado de paz se instalou em mim. Passei a perceber coisas que antes não conseguia. E me dei conta de uma coisa importantíssima, de como esse “eu” foi construído. Uma das coisas que percebi foi a proteção e o amor de meus pais ao me criar. Sou fruto disso tanto quanto seus genes. Que quer ser amado apenas desse jeito, incondicionalmente. Essa percepção é indelével, mas ao examinar mais fundo, vai ficando mais claro. Enfim, minha vida atual é o que construí a partir desses relacionamentos e experiências. Muitos sofrimentos e erros aconteceram pela inconsciência de que sou assim formado, com uma história única. Minha relação com minha esposa foi o reflexo disso. Nunca consegui vê-la de fato como ela é, um ser construído com outra história e portanto diferente de mim.

Poder lembrar e “vivenciar” meus sentimentos em relação à essas pessoas me deu a oportunidade de observar as razões/pensamentos que estão por traz de cada emoção negativa, cada erro de interpretação. Chorei muito, a partir do quarto dia, ao perceber a cura se operando em mim. Mas segui treinando fazer naikan e examinando o “eu”.

Bom, daqui para frente espero praticar esse exame todos os dias, ver a vida de maneira mais objetiva. Aceitando a vida como ela é, sem teorias. É incrível como, por si só, isso cria um estado interno de paz e quietude. E sempre que as obrigações da vida cotidiana me tirarem deste estado, espero saber ainda como voltar para o mundo dos fatos verdadeiros.

Saí do Naikan com um querer forte de agradecer pessoalmente à todas as pessoas que fizeram muito por mim: mãe, pai, irmãos, esposa, filhos e amigos. E de querer retribuir a todos dentro de minhas possibilidades e das necessidades deles. E, assim como fizemos com o Tokkou, quero trazer o Naikan para Criciúma.

Hoje, passadas algumas semanas desse naikan de 7 dias, verifico que os fatos passados ainda estão lá na memória, mas os sentimentos que eles despertam não são os mesmos. E uma lembrança em particular, ainda vem a tona… não faço de conta que não existe… deixo ela vir… procuro não julgar, apenas observar e, assim, treinar meu olhar para a verdade, mas… não é fácil. Cada vez é diferente… preciso acionar, como um método mesmo, a necessidade de ver o fato, além da cortina dos meus sentimentos/pensamentos, com carinho.

2 respostas para “Eu fiz Naikan”

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